O que faz de um tango um tango

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Não é sempre que podemos encontrar em um jornal brasileiro um texto sobre a cultura latino-americana. Pois não é que a Folha de São Paulo nos presenteou com um belo texto? Em “O que faz de um tango um tango”, Mario Sabino define de forma poética essa música e essa dança tão envolvente. Confira na íntegra:

O que faz de um tango um tango não são as letras lamuriosas. O que faz de um tango um tango não é o Gardel morto que canta cada vez melhor. O que faz de um tango um tango não são os passos ensaiados na tradição. O que faz de um tango um tango não é a orquestra com o ar cansado de quem tudo já viu. O que faz de um tango um tango não são as pernas altas da dançarina, calçadas em meias pretas. Não é seu cabelo preso ora com flor, ora com fita. O que faz de um tango um tango não é o chapéu antigo do dançarino. Não são os seus sapatos lustrosos. Não é o seu terno de risca-de-giz. Não é o seu lenço dobrado no bolso da lapela. O que faz de um tango um tango não é Buenos Aires. Não é qualquer geo-grafia. O tango não está no mundo das latitudes, das longitudes, das cartografias, dos guias turísticos.

O que faz de um tango um tango é a atração e a repulsa. É a tentação e o medo. É o afeto e a raiva. O que faz de um tango um tango é ela seguindo na mesma direção dele, e ele seguindo na mesma direção dela, até que um tenta fugir e o outro tenta impedir, numa alternância de fugas que se querem e não se querem. O que faz de um tango um tango é a dor de um e de outro transformada em coreografia simétrica. O que faz de um tango um tango é o encontro que se desencontra e se reencontra. O que faz de um tango um tango são os volteios do amor dos poemas clássicos, das canções dos trovadores. Os volteios do amor que bebe no prazer e na fúria. Os volteios do amor que se amorna e logo torna a incandescer. O que faz de um tango um tango é o amor que, na iminência de um final que se prenuncia infeliz, acha o final feliz. Porque nunca em um tango que é tango os dançarinos terminam separados, descolados, deslocados.

O que faz de um tango um tango sou eu dentro de você na carne e você dentro de mim na alma, depois do último acorde, depois do último aplauso, depois da última lágrima, depois do último gozo. O que faz de um tango um tango é a música que se quer silêncio. O silêncio dos amantes.

MARIO SABINO. Folha de São Paulo, 19 de setembro de 2010.


Por Rodrigo Souza

Editor e idealizador do Projeto Latinoamérica. Google+

2 comentários

  1. Lendo esse texto BELÍSSIMO… conseguimos perceber, claramente, a diferença entre um escritor de talento e nós, pobres mortais. Interessante como, apesar de ser em prosa, tem os contornos da poesia…cheio de imagens lindas como a de Gardel, cantando ca devz melhor, depois de morto e outras tantas. Ao chegar ao final do texto…fiquei arrepiada diante da BELEZA ABSOLUTA.

  2. adimiravel seu senso de estética estou comovido com sua segunda parte e peço solenemente a permição para reeditar sua matéria com o titulo” A BALADA DA DEPENDENCIA SEXUAL”
    Obrigado :°)

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